13/08/07

Às vezes caio, deixo-me cair...

Uma vez, há muito tempo, quando para mim as coisas simples ainda eram todas obvias e ver televisão nas tardes de domingo era inevitável, retive a frase, no meio de um filme, do qual não recordo o título: “a fé só existe, porque existe a dúvida”.
Foi assim que vi, revista e aumentada, a minha lista de axiomas adolescentes.
Então, a fé e a dúvida, pensei, coexistirão infinitamente.
Numa idade especialmente fértil em dúvidas, temi tornar-me monja, asceta, sei lá.
Isto caso as dúvidas fossem proporcionais à fé, claro.
Desligada do filme que, para mim, tinha terminado ali, naquela frase, emaranhava-me nos meus pensamentos pueris e lineares, condicionada, evidentemente, pela minha educação católica.

E por outras vertentes do meu processo de socialização: a escola.
A dúvida é condição de fé. E ia moendo aquilo à minha maneira.
À maneira dos meus catorze anos.
E pensei nas cruzadas e nas missões. Nos otomanos e nos bizantinos, no Concílio de Clermont e nas barbas grisalhas do professor de história que nos estava a ensinar aquilo tudo. E nada daquilo me fez sentido (e pensei mesmo ir tirar satisfações com o professor) pois não concebia encontrar alguém que não tivesse dúvidas, logo que não tivesse fé. Nem cristãos nem muçulmanos. Ninguém. Logo, se as dúvidas eram certas, mais cedo ou mais tarde todos achariam a tal fé.
Era só uma questão de paciência, de esperar pelo tempo certo.
Pensava assim, retida naquele axioma novo, acabado de adoptar.
E, mais tarde, perguntei à minha mãe se ela tinha dúvidas. E ela perguntou-me sobre quê. Sobre alguma coisa. E ela disse logo que não.
Fiquei de rastos, porque achei que ela deveria ter imensas dúvidas. Até porque ia à missa e, naquele tempo, para mim, ir à missa era ter fé.

E, agora, sinónimo de ter dúvidas.
Lembro-me de todos estes pensamentos cruzarem o meu cérebro como jactos.
E, no domingo seguinte, quando fui à missa, pus-me a pensar em quais seriam as dúvidas de toda aquela gente. Olhava-os, tentando descortinar as dúvidas que teriam. E se teriam tanta fé como dúvidas. Ou se teriam mais dúvidas do que fé. E se não tivessem dúvidas nenhumas, também não precisavam da fé para nada. Mas não devia ser bem assim, porque a minha mãe disse que não tinha dúvidas e estava lá. E a fé era ainda algo que eu não sabia definir. Eu entendia o que era ter dúvidas porque as tinha. E achava que quando rezava tinha fé. E, afinal, pareceu-me evidente que tinha fé porque tinha dúvidas.

E que talvez rezasse para as deixar de ter.
De resto não achava mais nada. Nunca tinha experimentado as consequências de ter ou não ter fé. Mas já tinha levado com as consequências de ter ou não ter dúvidas. A missa tinha chegado ao fim e, foi por esta altura que dei comigo a pensar numa tribo imaginária onde ninguém tivesse dúvidas de nenhuma espécie.
E não fosse à missa nem a nenhuma outra celebração.
Não duvidar de nada, nem de ninguém.

Não acreditar em nada nem em ninguém. Viver.
Aquilo agradou-me especialmente e, não fosse a igreja estar repleta de gente muito mais velha teria defendido, para mim, que as dúvidas tenderiam a desaparecer com o passar dos anos. Mas não. Era evidente que não.
À noite, no diário de bordo da minha adolescência, registei uma historieta intitulada «existir sem dúvidas», longe de imaginar o quanto esse relato encantado me faria sorrir de mim e das minhas estapafúrdias deambulações.
Uns anos mais há frente, ainda no liceu, cruzei-me com os primeiros filósofos e, já na universidade, com Mercia Eliade, Santo Agostinho, entre outros. Kierkegaard foi o mais cirúrgico a mexer, novamente, no assunto da fé e da dúvida. Obrigando-me a uma nova revisão dos meus postulados sobre a matéria. Ainda adolescente li, com certa angústia, O Desespero Humano. Nietzsche, também deu cabo de umas tantas auto-evidências da minha existência e foi com fascínio que as enterrei. Uns de uma forma, outros de outra, foram diversos os autores que pulverizaram o meu modus vivendi e o meu modo de pensar.
Tal como acontece hoje. Nunca mais as certezas foram as mesmas. Tirando uma ou outra. E as dúvidas somavam-se – somam-se – numa equação interminável.
Mas responde-me, dizia-me ela, impaciente, de olhos fixos nos meus.
- Tens fé, Isabel?
- Às vezes deixo-me cair. Caio e, lá em baixo, não há nenhuma rede.
Nada visível que me ampare o tombo. A dúvida.


6 comentários:

nefertiti disse...

gostei muito deste espaço.
excelente post.

Claudia Sousa Dias disse...

Adorei o final!

Beijo muito grande!


CSD

K disse...

Nada como uma boa dúvida para despertar a vontade de viver! Bom texto existencial!

K disse...

Nada como uma boa dúvida para despertar a vontade de viver! Bom texto existencial!

Nuno Carvalho disse...

Na dúvida... sobra o desejo de cair...

Uma folha... uma gota molhada de chuva... uma palavra amarrada aos últimos segundos... numa telha duma casa mais velha que os meus dedos feitos século...

Quando souber a minha idade... quando souber se sou a impaciência ou a longura... deixo-me cair...

folha...

gota...

palavra...

até ao segundo em que chegar...

Sílvia disse...

Eu as vezes, as vezes tambem me apetece cair, cair, cair... Mas tenho medo de depois nao me conseguir levantar.